Agora sou Claraboia

9 dezembro, 2013

Desde fevereiro de 2012, meus contos, crônicas e poemas estão em http://www.coletivoclaraboia.com.br. Apareçam por lá!🙂

Receita para desencardir

1 setembro, 2011

Foto: Andre's Flickr

Joga bastante sabão, deixa a chuva cair e o passado vai soltando, devagarzinho indo embora.

Neon

19 novembro, 2010

Ney, o passado é conta-gotas quando denuncio contigo os medos de amar que a gente bebe às pressas e a secura de ser eternamente de alguém se instala. Ney, veja bem meu bem, sua voz ecoa aqui na minha pélvis, tudo se retorce, e o que ficou lá atrás se acende, letreiro de neon barato de novo à moda, velho-hype invadindo a Augusta e outras noites. Ney, sua vontade de se instalar ad infinitum no alto-falante incomoda os amores recém-tirados do forno, agulhando o som do cheiro dele que agora é meu, e todas as certezas que eu havia inventado para poder seguir em frente.

Foto: Cobalt123

Despedida

18 novembro, 2010

Foi deixada como quem vai pra casa cantando, sem pressa de chegar nem remorso esperando na porta.

Foto: PurBlanca

Machista

16 novembro, 2010

Tá, então vamos logo começar a história que tá todo mundo cansado e precisa dormir.  É, a mamãe precisa trabalhar cedo, você tem escolinha. Agora deixa eu pensar, hummm… Bom, tem aquela da fada que não sabia que a varinha de condão tava com defeito e transformou o príncipe num… Ah, essa eu já contei? Pôxa, que chato, Guto. Ai, ai, a memória da mãe tá parecendo o carro do vô Nereu, falhando toda hora. Deixa eu ver uma história que ainda não contei…. Ah, já sei. Essa era da minha infância. Cê não sabe o que é infância? É quando a mamãe tinha o mesmo tamanhito que você. É, sério, já fui dessa alturinha aí. A vovó Ana sempre dizia que a mamãe parecia botão de punho de camisa, bem pequeninho. Ok, vou parar de enrolar, vamos lá. Era uma vez… Não, Gustavo, a história tem “era uma vez”, mas é uma história diferente. Eu sei, mas é que toda história tem que ter um era uma vez no início. Não, ninguém vai pra prisão se não tiver era uma vez, tá bom? Fica sossegado. Agora pergunto: cê quer ouvir a história ou não quer? Tá, então retomando. Era uma vez uma princesa… Mas porque não dá pra ser princesa? Porque você é menino? Quem falou isso pra você? Ai, esse seu pai enfiando essa idéia machista na sua cabeça… Machista? Ah, machista é…Machista é um homem muito horrível que…Não, nada, vamos lá, eu vou contar a história do rei. Não, não vou contar a história do machista, Gustavo. Porque não. Isso, a história do machista o papai vai contar amanhã à noite para você. Agora presta atenção, vai começar a história do rei. Não, não sei se ele vai morrer no final. Por quê? Você quer que ele morra? Gustavo, a mamãe tá inventando a historinha na cabeça dela, por isso que o final não tá pronto ainda. Posso contar agora? Bom, vamos lá. No Reino das Cebolinhas vivia um rei… Quê? Amor, nem toda história precisa começar com era uma vez.  Tá, eu sei que eu falei que toda história tinha que iniciar com era uma vez, mas agora tô desfalando, certo? Ai, Gustavo, tá bom, já que você quer, eu uso era uma vez. Bom, começando: era uma vez um rei. O nome dele era Manoel Ernesto e o seu reino se chamava Reino das Cebolinhas. Tinha esse nome porque o reino IN-TEI-RO cheirava a cebola. Ãh? Sim, cebola é aquela coisa gosmenta que você não gosta de comer no molho. Mas é bom pra crescer e ficar forte, Guto, tem que comer. Bom, continuando. De manhã, o cheiro das cebolinhas era muuuito suave, mal dava pra sentir. Sabe blusa depois de lavar que continua tendo um rabinho de cheiro da mamãe e você adora abraçar pra dormir? Pois é, era assim. É que nesse momento as cebolinhas ainda estavam lá quietinhas, ressonando suavemente, sonhando com os banquetes do rei, aqueles jantares imensos em que elas sempre eram a atração principal. Você também queria participar de um banquete? Eu também, amor, mas agora presta atenção que vou continuar, já passou meia hora, você nem pregou o olho ainda. Ai, Jesus, esse guri não dorme nunca. Não, nada, Guto, tô falando que as cebolinhas adoravam dormir, agora presta atenção. Bom, quando chegava a hora do almoço, o cheiro de cebolinha no reino ficava cada vez mais intenso. Não desgrudava do nariz. Intenso? É forte. O cheiro ficava cada vez mais forte, entendeu? Forte feito o bicho-papão que come criança que vive interrompendo história que as mamães querem contar na hora de dormir.. Ah, cê não vai mais interromper? Então tá, vamos adiante. Além do odor fortíssimo, na hora do almoço todos os habitantes do reino das Cebolinhas choaravam. Por quê eles choravam? Calma, Guto vou chegar lá. Mas os habitantes desse reino não choravam porque gostavam, ou porque a mamãe deles tinha dado um castigo bem feio e triste – como ficar um mês sem brincar de imaginar o que vai ser quando crescer, ou porque eles eram obrigados a comer o que não gostavam, feito “certas pessoas”. Não, nada disso. Eles choravam… Sim, amor, agora eu vou dizer por que as pessoas choravam. Bom, eles choravam porque uma nuvem muito grande e molhada e branca cobria todo o reino e despejava sobre os habitantes uns pedacinhos minúsculos de saliva das cebolinhas, que falavam muito, muito, muito, enquanto tomavam café da manhã e aproveitavam para fofocar sobre as notícias que liam no jornal. O que elas liam? Não sei, amor. Deviam ler sobre o que aconteceu na novela. Isso, ou liam sobre receitas de comidas com cebolinhas. É talvez fosse isso mesmo. Bom, continuando… O quê, você quer ir no banheiro? Ai, Jesus, esse menino não fecha o olho. Não, não, tô falando que certamente as receitas eram de molho, molho de cebolinha. Isso, a mamãe tá falando da historinha ainda. Vai no banheiro, Gustavo, a mamãe te espera aqui. Só não demora. Não, a mamãe não vai contar o resto da historinha, pdoexá. Gente, tô pregada, esse menino não dorme. O que eu faço, Cristo? Tenho que pensar numa história bem chata, pra ele dormir logo… Ai, qual? Ah, já sei.. E então, fez xixi bonitinho, lavou a mão? Isso mesmo, senão a bactéria vem durante a noite e engole o Gustavo. Bom, então vamos lá, a mãe vai contar uma história incrível, pra você dormir logo. Não, a mamãe se enganou, não é pra dormir logo, é pra se divertir de montão. Vê só.  Tá preparado? Não, meu amor, não é a história do Reino das Cebolinhas. Presta atenção, mamãe vai começar: Era uma vez um machista…

Ilustração: Pupilas Gustativas

Faxina

10 outubro, 2010

Encontrou o riso dele escondido atrás do sofá, brincando de esconde-esconde com as palavras.

Foto: The Old Penfold

28 julho, 2009

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Azuis

De repente, o pai interrompeu o lento caminho da sopa até a sua boca e olhou surpreso para a filha.

– O que é isso no seu rosto?

A mãe suspendeu a colher no ar, enquanto um sinal de interrogação crescia de forma gigantesca em seus lábios.

– São estrelas?, perguntou ela quase petrificada.

A jovem parecia não entender. Olhou para a janela.

– Estrelas? Onde, com todo esse Sol lá fora? (Cumpre dizer que havia Sol lá fora, mas eles tomavam sopa porque o inverno belga é de fazer renguear cusco.)

O tom surpreso na voz do pai foi aumentando.

– Mas isso é uma….tatuagem?!?

A mãe já engolia um soluço. Justo ela, uma menina que nunca criara problemas. Devia estar se drogando. Ou eram as más companhias. Sabia que não podia confiar no filho da vizinha do terceiro andar. Aquele menino de cabelo negro com a franja sempre caindo no olho pintado de lápis preto não podia ser boa coisa. Começou a gemer baixo:

– Eu não acredito que você fez isso.

A menina parecia aturdida.

– Como assim?

– Como assim digo eu!! Você vai ver como assim!, esbravejou ele, a raiva pulando no pescoço.

O pai avançou sobre a mesa. Pegou-a pelos ombros, sacudiu. Levou a menina até o espelho. Psssou a enumerar cada ponto negro no lado esquerdo do rosto da filha em voz alta:

– Assim: 18, 25, 39, 43… 56! 56 estrelas!!!!

A mãe já estava fora de si. Confiara tanto no bom senso da menina. Gritava:

– Como você pode fazer isso? Arruinando nossa família dessa forma? Os vizinhos! O que os vizinhos irão dizer?

A menina começou a chorar. No início, eram só algumas lágrimas. Mas agora ela berrava. Entre soluços abriu o jogo: havia pedido para fazer apenas uma estrela, mas adormecera. O filho da vizinha do terceiro andar tinha ido junto. Lhe dera um comprimido para apagar e não sentir dor. Quando acordara, estava assim.

A mãe agora beijava o rosto estrelado da menina. Sim, estava certa. Sua filhinha fora obrigada a ato tão abominável. Certamente o tatuador, essa gente sórdida e cheia de amigos drogados estava combinado com o filho da vizinha do terceiro andar. Tinha certeza. O pai já acionara a polícia, o juiz, os jornais. Queria a cabeça do tatuador.

Bastou um dia para o caso ganhar repercussão internacional. Jornalistas e blogueiros se enfrentavam na porta da casa atrás da melhor cobertura sobre o caso da jovem que pedira uma estrela no rosto e ganhara 56. Um estúdio já chamava seu melhor roteirista para transformar a história em filme, alertando os jovens para os riscos que corriam fazendo tatuagens. A ala direitista do Congresso belga já usava o caso para coibir a atividade desses marginais Um importante canal de televisão americano acertava os detalhes para transformar o caso em um especial à la “caso verdade”.

Na noite seguinte o pai, que agora já considerava a possibilidade de fazer a família entrar em um novo patamar financeiro pós-fama repentina, encontra a menina chorando copiosamente na cozinha. Passou a mão a na cabeça dela, em tom doce:

– Não chore, minha filha. Vamos ganhar tanto dinheiro com essa história que contrataremos o melhor cirurgião plástico do mundo para devolver seu rosto ao que ele era.

– Não é isso, pai.

– Então o que é, meu reischunzel*? Fale para o papaizinho. Papaizinho não está mais chateado com você. (* Palavra belga para “meu bebezinho querido, lindo e doce que cresceu e continua querido, lindo e doce”.)

– Não, você vai odiar o que eu fiz.

– Não, papai não está mais bravo com sua tatuagem.

– Mas não tô falando da tatuagem, pai, negou ela suavemente.

– Não?, indagou ele entre surpreso e desconfiado. Então o que você fez que vou odiar?

– Eu menti.

– Filha, você está me deixando assustado. Mentiu a respeito de quê?

– Eu estava… Estava acordada quando fizeram a tatuagem em meu rosto.

Os grilos cricrilaram na rua. O pai entreabriu a boca enquanto via a casa nova que comprariam, a viagem tão sonhada ao Brasil, uma velhice tranquila, tudo, tudo indo água abaixo com a revelação. Não queria acreditar. Estivera tão perto e agora isso. Com voz embargada, cuspindo as palavras sílaba por sílaba, conseguiu enfim dizer:

– Por quê? Por quê inventar tudo isso?

– Eu queria me vingar.

– Vingar do quê, menina?, dizia lamentoso-enraivecido-incrédulo o pai.

– Me vingar porque ele entendeu errado a tatuagem que eu pedi.

– Mas o que você queria tatuar?, ele agora conseguia perguntar em meio à incredulidade.

– Borboletas, pai. 56 borboletas azuis.

(Texto inspirado em reportagem sobre a menina belga que tatuou 56 estrelas no rosto, disponível aqui.)

Foto: Butterfly Blue, de Mr. Greenjeans.

A última crônica

5 junho, 2009

A caminho de casa, decido tomar uma branquinha naquele boteco de Copacabana que recendia a velhos tempos, pululante do baixo clero de prostitutas, cafetões, traficantes e outros seres undergrounds que, como eu, trabalhavam nas imediações. Tinha ainda uma tarefa inglória pela frente, e adiava ao máximo o momento de iniciar. A crônica que escrevia semanalmente para um jornal mediano há muito havia deixado de ser a reafirmação para um futuro glorioso nas artes literárias. No início a euforia era crescente, e cada parágrafo escrito se tornava um atestado da minha capacidade de extrair o melhor da língua portuguesa. Eu seria um escritor famoso, e minhas rimas, expressões, frases que exprimiam todo o arsenal de sentimentos da alma humana seriam lembrados postumamente como um marco da literatura contemporânea. Quanta tolice. Agora me pesava a obrigação de escrever uma coluna que muitas vezes era suprimida em prol de uma cobertura mais extensa do último acidente aéreo ou do jogo que apontava o vencedor do campeonato carioca e que, quando muito, rendia três comentários na caixa de e-mails do editor do jornal. Sem falar que muitas vezes me via obrigado a escrever roteiros infomerciais para garantir meu ganha-pão.

Em casa o cenário de desesperança se repetia. No subir da noite sempre me esperavam dois tios velhos, bastante doentes, um deles ainda paralítico. Exigiam cuidados, atenção, alimentação especial. Integravam a herança de grego que eu havia recebido do meu pai. Ficavam os dois prostrados o dia inteiro em casa, esperando a vida decidir seu fim por eles. O que ainda caminhava passava o dia à janela, espionando a rotina que corria lá fora. Junto à porta, no fundo da cama, o outro espiava a parede úmida, o crucifixo negro, as moscas no fio de luz. Com inveja, perguntava o que acontecia. Deslumbrado, anunciava o primeiro:
— Um cachorro ergue a perninha no poste.
Uma moça bonita discute com o namorado. Um policial cobra propina de um comerciante da rua.

Ficavam nisso o dia inteiro, o tio que andava provocando inveja no outro, que muitas vezes fervia de ira e gritava impropérios. Então brigavam, se xingavam desenterravam episódios antigos de família. A vingança do mais velho era ficar dias sem ir à janela ou contemplá-la guardando o que via só pra si, soltando risinhos abafados ou comentando tudo em tom baixo, quase inaudível, de forma a provocar ainda mais o irmão.

Eu ruminava todo esse fracasso bebendo uma dose de cachaça barata. Enquanto me perguntava onde encontrar inspiração cotidiana para a crônica que me esperava percebo os dois homens extravagantemente vestidos que chegam. Nos braços de um deles um pequeno poodle cor-de-rosa se agitava. Balançava as orelhinhas, olhando nervosamente para todos os lados. Se acomodaram junto ao banheiro masculino, no fundo do bar. Três seres chamativos que compõem em torno à mesa a mais conhecida instituição contemporânea de família, o casal gay com seu pet. Vejo, porém, que se preparam para algo mais que matar a fome ou celebrar o aniversário de casamento com brindes e bater de copos.

Passo a observá-los. O careca de bigode loiro e camisa de paetês vermelhos consulta a carteira e chama o garçom discretamente, apontando para os copos e bebidas que ficam atrás do balcão. O de chapéu cowboy e vasto cavanhaque vermelho alisa a cabeça do cão, beijando-a de vez em quando. Olha ao redor, analisando a profusão de pessoas, levemente disperso. O garçom se afasta. O homem de chapéu, então, se espalha pelo sofá, esticando pernas e braços. Estava à vontade, comportava-se como dono fosse da espelunca. O cãozinho se aninhou junto a sua barriga. Junto ao balcão, vejo os dois pequenos copos onde o garçom despeja as doses. O licor de pêssego, a Amarula e a groselha se juntam formando um líquido de tom amarronzado.

O cãozinho recolhe migalhas esquecidas pelo pano imundo do garçom, que acabara de depositar os copinhos na mesa. Por que não bebem? Vejo que os três, o homem calvo, o cara de chapéu cowboy e o pet obedecem em torno à mesa um discreto ritual. O careca remexe na mochila Nike falsificada, retira alguma coisa. O outro se mune de uma caixa de fósforos, e aguarda. O poodle também espera, como uma criança ansiosa. Ninguém mais presta atenção à cena, apenas eu.

É verde o líquido que o bigodudo careca verte de uma garrafinha prateada para cada copo. De longe, acredito ser absinto. Enquanto os líquidos se misturam, o sujeito de chapéu risca um fósforo e se aproxima da bebida. O poodle se retrai, incomodado pela pequena chama. Assim que o fósforo se aproxima do tom verde que agora inunda os copos, uma pequena fogueira surge no interior de cada drinque. Como a um gesto ensaiado, os dois homens levantam os copinhos. Vão brindar. Agora, nada discretos, falam em tom alegre, olhos indo de um a outro, passando com ternura pelo pequeno cãozinho:
– Ao batismo de Bob!

Foi só uma uma fração de segundos, mas os olhos do sujeito careca se cruzam com os meus. Surpreendido pelo participante oculto do íntimo ritual, ele derruba o copo cheio de labaredas sobre a mesa, coberta por uma toalha de plástico encardida. Plásticos deveriam ser considerados bons condutores de calor. Eu deveria parar de freqüentar bares ordinários. Geralmente costumam não ter extintores de incêndio em dia. Bombeiros, como a polícia do Rio, também não funcionam como deveriam. Percebi que não teria problemas para resolver minha coluna semanal. Nem as próximas. Essa acabara de ser a última crônica.

Trecho em vermelho retirado do texto Dois Velhinhos, de Dalton Trevisan, disponível aqui. Já minha crônica foi inspirada na crônica A Última Crônica, de Fernando Sabino, que pode ser conferida aqui.

Foto de Lucas Braga.

Momento triste

20 abril, 2009

deniscolette

Depois que teu cheiro foi embora

Minha boca se encheu de saudade

 

Foto: Denis Colette

Até quando

10 abril, 2009

Hoje combinamos

De nos amar

Só até ontem

 

Foto: paperladyinvites

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